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sábado, 22 de junho de 2013

Dilma entra em campo. E agora?

Foto/Antonio-CRuz-ABr
CANINDÉ, SergipeA História tem andado mais rápido que de costume nestas últimas semanas em nosso país. E quem tem dado o tom têm sido as ruas e a grande mídia. 







Por Wagner Iglecias

Mas não sem tropeços. Da demanda pela revogação do aumento das tarifas do transporte público, liderada pelo Movimento Passe Livre, que está na luta não é de ontem, passamos aos grandes atos nos centros e nas principais avenidas das grandes cidades.

De uma pauta pontual, como se sabe, as manifestações angariaram multidões e daí por diante uma série de demandas foram levadas às ruas. Ampliada a participação, ampliaram-se as motivações. Da tarifa zero passamos a reclamações sobre a precariedade dos serviços públicos e a temas os mais específicos, com destaque às críticas contumazes e permanentes ao governo federal, cada vez mais responsabilizado pelas mais diversas mazelas que afligem o país.

Apesar da repetição exaustiva de que se trata de um movimento horizontal que não tem lideranças, o que não tem faltado são grupos querendo influenciá-lo. Que o digam setores da mídia, partidos que aderiram às marchas após os anúncios de revogação dos aumentos e extremistas que têm agido com truculência nas ruas.

Fato é que nos últimos dias o movimento se espalhou e chegou a todas as regiões do país, passando a ocorrer também em cidades do interior e menos populosas.

O gênio saiu da garrafa, e setores da mídia, que inicialmente condenaram as manifestações, agora esforçam-se para diferenciar manifestantes de manifestantes.

A distinção é marcada: enaltecem os que vão às ruas de forma ordeira e repudiam os vândalos. Vandalismo que, afinal, sempre apavorou as classes mais abastadas e seu eterno receio de que os mais pobres passem a cobrar, nas ruas e em multidão, séculos de exclusão social.

Fato é que os protestos agora tomam também as periferias das grandes cidades, e a pauta na quebrada é mais do que conhecida: saúde, transporte, educação, moradia. Não é só o tom de pele dos manifestantes que muda na medida em que os protestos se difundem das regiões centrais para os bairros mais pobres. As demandas também mudam, e pouco têm a ver com temas como a PEC 37, o Fora Dilma ou o Sem Partido, que são vistos nas manifestações da classe média. O gigante acordou, e não tem só o braço direito. Tem o esquerdo também.

O sistema político, inicialmente perplexo, mandou a polícia para as ruas. E muita gente se perguntou onde estariam os políticos, que pouco se pronunciavam. Durante dias quase tudo o que se viu foram declarações burocráticas, destinadas a classificar os movimentos como “políticos” e “pequenos”. Declarações que acabaram solapadas pelo crescimento da massa que tomou praças e avenidas.

Ontem tivemos, finalmente, o pronunciamento da presidente Dilma. Equilibrado e não muito ousado. Como mandatária da nação, Dilma fez aquilo que nada mais é que a obrigação dela num momento histórico delicado como este que o país está vivendo nestes dias: enalteceu a vibração pacífica da maioria que está indo às ruas, chamou o diálogo entre os Três Poderes e convocou governadores e prefeitos das principais cidades para construírem, juntamente com o governo federal e com a sociedade civil organizada, as soluções para aquelas que são as duas principais demandas emanadas das ruas nestes dias: a reforma do sistema político, hoje tão distante da população, e um plano emergencial para a melhoria dos serviços públicos de transporte, saúde e educação. A ver.

Para muitos, mais à esquerda, o discurso soou como uma genérica e tímida carta de intenções, que não colocou os dedos nas feridas. Mas pelas reações da direita, buscando desacreditar as palavras que Dilma trouxe ao país, talvez a presidente tenha sido bem sucedida naquilo que era possível para o momento.

De fato, ela pontuou que o governo a partir de agora entra em campo, e aposta no diálogo entre os atores políticos e sociais, na divisão de responsabilidades e no compartilhamento de decisões, pilares, enfim, de um sistema democrático.

Dilma talvez pudesse ter sido mais assertiva, convocando com data marcada já para os próximos dias uma reunião com todos os governadores. Talvez pudesse ter citado que seria interessante contar com o apoio dos ex-presidentes Lula e FHC nesta grande mesa de trabalho que sugeriu construir, envolvendo desta forma também a oposição no encaminhamento e na resolução de questões que são do interesse da sociedade e do sistema político em geral.

Embora as ondas de protestos tenham, a longo prazo, tendência de arrefecer, nada garante que novos episódios de impacto não venham a ocorrer. O discurso de Dilma sinaliza um novo capítulo nos acontecimentos, com o governo entrando em campo. Mas terá de ser necessariamente um capítulo curto. Porque a expectativa da sociedade é a ação concreta. Que é de interesse não só dela, sociedade, mas também do próprio governo, que somente assim poderá garantir algum grau de protagonismo nessa história toda.

Wagner Iglecias é doutor em Sociologia e professor da EACH-USP.

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